Autor: Filipe Manuel Neto
**Entretém e tem sentido épico, apesar de atropelar a veracidade histórica.**
Pessoalmente, tenho algum receio quanto a filmes de fundo histórico, pois é extremamente comum atropelarem a história em privilégio da liberdade dramática. Como dificilmente podia deixar de ser, isso também aconteceu com este filme, que apresenta tudo menos a verdade ou a verdadeira história de Joana d’Arc.
Neste filme, a jovem Joana é literalmente transformada numa fanática religiosa que sublima os seus traumas de infância por via de uma fé cega e um ódio aos ingleses. Com a França em vias de perder a Guerra dos Cem Anos e o trono francês a equilibrar-se periclitantemente entre o rei Henrique VI de Inglaterra e a enfraquecida Casa de Valois, Joana apresenta-se como sendo uma enviada do Céu para salvar a França. O filme nunca dá crédito às visões de Joana e coloca o público em dúvida. Terá Joana falado com Deus ou visto apenas o que quis ver?
O filme tem um elenco de peso, com nomes muito conhecidos, mas nem todos estiveram bem. Milla Jovovich é bonita, mas parece-se mais com uma fanática religiosa enlouquecida do que com uma carismática e convincente líder de massas, como deve ter sido a verdadeira Joana. O desempenho dela começa bem, mas vai perdendo qualidade à medida que o filme evolui e ela parece simplesmente perder o juízo ou a noção da realidade. John Malkovich fez um rei Carlos VII hipócrita e foi bom nessa tarefa, mas não consegue ir além disso. Dustin Hoffman faz uma personagem estranha e muito cínica, mas o filme não esclarece quem ele é realmente e fica-se com a ideia de que pode ter contornos diabólicos. Vincent Cassel também aparece mas não faz nada de notável.
Foi dirigido por Luc Besson, que coloca o estilo e a arte acima do roteiro ou da história contada. Nesse aspecto, e em boa parte por culpa disso, senti que o filme, além de esquecer a maioria dos detalhes da vida da verdadeira Joana e de empolar o que restou, é bastante vazio. Bonito, mas sem nada que o sustente e dê conteúdo. O final é bastante medíocre. O melhor do filme são as cenas de acção e de luta verdadeiramente épicas, com uma boa banda sonora e bons adereços, além de figurinos e cenários medianos e historicamente imprecisos.
Em 30 May 2020