Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme escusado.**
Por vezes, parece que os produtores têm uma enorme dificuldade em compreender quando um filme não deve ser feito. A franquia “Academia de Polícia” deveria ter acabado no sexto filme, e mesmo assim já estaria a terminar bastante desgastada. Este filme, feito vários anos depois, foi um esforço simplesmente escusado que não deixa, seguramente, boas memórias a ninguém.
Após ver o filme, fiquei realmente com pena por a franquia terminar com um filme tão mau. Era algo que, para mim, devia ter sido evitado. “Academia de Polícia” foi uma das franquias cómicas mais interessantes e bem-sucedidas dos anos 80 e ainda hoje há muita gente que guarda boas memórias destes filmes. Eu mesmo, quando criança, vi-os várias vezes na televisão.
O roteiro é perfeitamente idiota e uma simples desculpa para levar algumas das personagens do filme para a Rússia pós-soviética, onde deverão auxiliar a polícia local a combater um grande mafioso que está a transformar-se num oligarca (um dos muitos que, como sabemos, surgiram das cinzas do regime comunista, gordos com negociatas obscuras em que o povo russo acabou a perder). É um roteiro infeliz, pobre e feito por pessoas incapazes. O humor, por sua vez, está absolutamente ausente. Não ri por um único minuto.
O elenco, que até aqui havia sido relativamente estável (com as ausências de vários actores a surgirem a partir do quarto filme), havia-se desmoronado por completo, e a maioria dos actores recusou-se a fazer parte deste projecto. George Gaynes está de volta, mas a sua personagem, o Comandante Lassard, parece simplesmente um velhote com alzheimer (com todo o respeito por qualquer pessoa que padeça desta séria doença, não me levem a mal). Gaynes não tem piada e a sua prestação aqui é lamentável. Michael Winslow tenta, ainda, fazer algumas das piadas a que já nos acostumou, aproveitando os seus dotes vocais…, mas não tem material nem tempo e o que faz não tem frescura ou novidade. Sir Christopher Lee faz uma aparição breve no filme, e até onde percebi, fê-lo como um favor ao produtor. A amizade é algo bonito, e também gosto da cortesia entre profissionais, mas aposto que Lee não quererá ser recordado por este filme (e seguramente não vai, ele fez coisas melhores, como sabemos). Quem acaba por se destacar de alguma forma é Ron Perlman. O actor, que conhecemos por outros trabalhos muito mais dignos, tentou ter piada e dar alguma dignidade à personagem dele. Meritório, respeitável, mas indigno do actor que ele é. O resto do elenco não merece menção.
Há alguma qualidade redentora neste filme? Para ser sincero, não creio…, mas mesmo assim, eu sinto-me na obrigação de fazer uma pequena ressalva: gostei do facto de terem feito muitas das filmagens na verdadeira cidade de Moscovo e de terem usado figurantes russos reais, falantes da língua russa. Isso dá ao filme uma certa autenticidade que merece ser destacada, e que mais falta faz actualmente, onde qualquer pedaço de pano verde ou azul substitui um cenário real e poupa alguns dólares ao orçamento da produção. Todavia, deve ter sido necessária coragem e alguma dose de loucura para procurar fazer um filme em meio às convulsões políticas e militares que a Rússia estava a viver naqueles anos.
Em 20 Oct 2022