Autor: Pedro Quintão
"Revenge" parece ser mais um daqueles filmes de terror estereotipados sobre uma mulher que sofre uma agressão sexual e depois atenta matar os agressores um por um. O filme é isso, mas também é muito mais e muito melhor do que qualquer outra obra desse subgénero.
A narrativa é extremamente simples, mas a realização de Coralie Fargeat torna tudo magistral e único. Além disso, amei a cinematografia, o som é a edição. Não quero dar spoilers sobre o que acontece durante o filme, mas apenas digo que ficarão surpreendidos. Sinto que este seria o típico filme que um, outrora, jovem Quentin Tarantino faria, com a ajuda de um excelente diretor de fotografia para criar imagens espetaculares e memoráveis.
Coralie Fargeat sabe como construir uma tensão palpável que nos prende do início ao fim. Desde o momento em que a protagonista, Jen, é apresentada, até aos eventos traumáticos que a transformam numa máquina de matar, sentimos uma conexão intensa com ela. Queremos desesperadamente que ela sobreviva e vença sobre os seus agressores. Esta ligação emocional torna cada cena ainda mais tensa, porque nos importamos profundamente com o seu destino, e isso também se deve à interpretação da talentosa (mas muito subvalorizada) Matilda Lutz, uma atriz que me deixa frustrado por não ter o reconhecimento que merece.
Como dei a entender algumas linhas atrás, o espetáculo visual de "Revenge" é magnífico. A paisagem árida do deserto onde a história se desenrola é capturada com uma beleza brutal. Cada enquadramento é cuidadosamente composto para causar impacto visual e emocional. A paleta de cores e a iluminação contribuem para criar uma ambientação única. É uma pura obra de arte visual.
Apesar dos seus muitos méritos, o filme não é perfeito. O único problema foi a falta de coerência em certos momentos. Quando os vilões tentam livrar-se da protagonista, no final do primeiro ato, ela transforma-se quase numa Super-Mulher e sobrevive a algo que seria impossível de sobreviver na vida real. Eu mudaria essa parte, tornaria-a mais realista, mas tudo o que acontece a seguir é tão bom que faz esquecer-me dessa pequena incongruência. Além disso, também aprofundaria mais a personagem principal no início do filme, porque ela parece um pouco bidimensional.
Para mim, "Revenge" é o melhor filme de vingança que vi desde "Kill Bill". A intensidade emocional, a brutalidade e a narrativa envolvente fazem dele um dos melhores thrillers dos últimos anos, com um dos melhores terceiros atos que já vi. Não tenho palavras para descrever o quão incríveis são os últimos 10-15 minutos do filme. É uma experiência cinematográfica que nos deixa sem fôlego e ansiosos por mais obras desta realizadora.
Em 22 May 2024