Autor: Marte
_Atenção! Contém spoilers substanciais. Prossiga com cautela._
Ladrões de Bicicleta é um filme em que não acontece nada, e acontece muita coisa ao mesmo tempo.
Em menos de 2 dias acompanhando os personagens, conseguimos sentir seu desespero perante a fome e a pobreza, com a esperança literalmente roubada por outra pessoa que passa fome e pena com a pobreza. Como vi em outra resenha fora daqui, o filme "é sobre pais e filhos, sobre como os pobres roubam-se entre si porque outras pessoas roubam deles todos".
Durante a busca pela bicicleta, eu não fiquei TÃO engajada, mas o final recuperou meu engajamento completamente, e a atuação de Enzo Staiola, com apenas 9 anos, brilha na cena. Você tem vontade de pegar Bruno, levar pra casa e dizer que vai ficar tudo bem (ainda que não vá). A cena dele comendo o lanche de mussarela, dividido entre o prazer, a culpa e a vergonha, enquanto se vê incapaz de usar talheres como o garoto rico da mesa ao lado, resume todo o filme e a humilhação da pobreza extrema.
Em resumo, roubando (rs) a resenha de outra pessoa na rede ao lado, "(...) o protagonista termina sua jornada da mesma maneira que começou. Porém, agora vai carregar pelo resto de sua vida a vergonha de saber que seu filho assistiu seu ato de desespero."
Em 20 Nov 2024
Autor: Filipe Manuel Neto
**Um dos filmes mais aclamados de Vittorio De Sica, cheio de preocupações sociais fortes, é um filme simples, mas que não pode ser analisado de modo simplista.**
Quando se fala no neo-realismo italiano é impossível não falar neste filme. Além de ser o epítome deste género cinematográfico, profundamente socialista na sua abordagem dos problemas mais prementes das classes laborais e no compromisso, declarado, de mostrar a realidade nua das pessoas comuns, o filme é impactante pela maneira quase jornalística com que nos mostra as angústias e incertezas de uma chusma humana de pessoas pobres, em meio a um país devastado pela guerra e em profunda reconstrução (tanto física quanto mental e psicológica). Ver este filme é mergulhar nas preocupações destas pessoas, e num tempo em que o simples roubo de uma bicicleta podia de facto condenar uma família à fome e à miséria.
Não vou discutir se este é o melhor filme de Vittorio De Sica. Isso é um debate académico para os grandes críticos profissionais e para os estudiosos do cinema, e eu não sou nada disso. Limito-me à minha insignificância afirmando que este é, indubitavelmente, um dos trabalhos mais reconhecidos e aclamados do cineasta, e um dos filmes italianos de maior projecção internacional de sempre. Para isso contribuiu, claro, o facto de ter ganho, nesse longínquo ano de 1950, o BAFTA para Melhor Filme, o Golden Globe Award de Melhor Filme Estrangeiro e um Óscar especial, numa altura em que a Academia de Hollywood ainda não tinha um prémio para o melhor filme de produção estrangeira.
Não irei, também, falar muito do enredo: é uma história bastante simples e, por isso, sinto que falar demais irá revelar demasiado sobre a trama e eu nunca gostei de fazer “spoil”. O que quero dizer é isto: recomendo que cada um veja o filme, e também outros do mesmo cineasta, pois a simplicidade aparente desta e doutras histórias dos seus filmes não nos dão margem para uma abordagem simplista ou para a mera indiferença. Num tempo em que sentimos que os valores de humanismo, de altruísmo, de generosidade, de compaixão e comprometimento social parecem estar ameaçados ou condenados a um wokismo vão, que apenas os canibaliza, vale a pena voltar a rever estes trabalhos, pois apesar de o tempo ter passado e as coisas, hoje, serem felizmente diferentes, muitas das suas preocupações e anseios permanecem actuais na vida de imensas pessoas mundo afora.
Além do recurso a actores realistas e credíveis, De Sica aposta fortemente na construção das personagens e da tensão dramática. Estabelecendo rapidamente a psicologia, tanto do pai quanto do seu filho pequeno, o director oferece-nos duas pessoas com as quais somos capazes de criar um laço empático, e depois obriga-nos a sofrer com elas, e por elas, até ao final pungente e angustiante, que nos deixa sem respostas. Barato de fazer e simples de executar, De Sica faz uma omelete refinada com poucos ovos: a fotografia é notável e os cenários e figurinos carecem de grande preparação, como se a produção tivesse, pura e simplesmente, saído para as ruas e filmado tudo enquanto as pessoas passavam ao seu redor, imersas nas suas vidas e no seu quotidiano. Funciona muito bem, e a banda sonora de Alessandro Cicognini aumenta largamente a tensão e a profundidade dramática sempre que tal se torna necessário.
Em 14 Mar 2025