Autor: Filipe Manuel Neto
**Algumas palavras sobre este filme, e sobre o seu director.**
Ninguém questiona que “O Couraçado Potemkin” é um tesouro do cinema mundial, cujo impacto na técnica cinematográfica teve ecos muito para além do continente europeu. O director, Sergei Eisenstein, é um dos maiores cineastas russos de sempre e este filme é a sua obra mais impactante e significativa. Porém, também não se pode negar que o filme, baseado em factos reais, é pura propaganda comunista, tem sido supervalorizado e não hesita em subverter factos e ignorar detalhes menos convenientes ao seu discurso político.
Eisenstein era estudante em São Petersburgo quando ocorreu a Revolução de 1917, que trocou o Czarismo por uma frágil república burguesa e, meses depois, por uma ditadura comunista. Apoiando o ideário bolchevique, Eisenstein engajou-se no Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa e, partir de 1920, trabalhou no teatro e no cinema, tendo um apoio sólido do governo de Lenine. A partir de 1924, com Estaline, a relação do cineasta com o poder arrefeceu: Eisenstein defendia a liberdade de criação artística, e é óbvio que Estaline não queria liberdade nenhuma na sua Rússia. Logo a seguir saiu este filme, que é talvez a primeira tentativa do cineasta para cair nas graças do ditador. O filme foi feito para comemorar um motim ocorrido em 1905 num dos mais importantes navios da frota do Mar Negro, e que terminou num embaraço diplomático posto que os amotinados se refugiaram na Roménia, forçando a Rússia a pedir a este país a devolução do seu navio.
O filme foi, também, uma oportunidade para o director fazer várias experiências, tanto ao nível da filmagem (com muita movimentação da câmara nalgumas cenas e o recurso a guindastes na filmagem de perspectiva aérea), quanto ao nível da edição e pós-produção, pensada para extrair a maior reacção emocional do público. Se você já viu o filme e sentiu simpatia pelos amotinados sem nunca ter apoiado ideias comunistas, saiba que essa era a intenção clara de Eisenstein. Convenientemente, o filme não leva a história até ao fim e acaba com a fuga dos amotinados sem dizer para onde. O filme também associa o motim ao massacre nas escadas de Odessa (hoje na Ucrânia, onde a Rússia tem cometido outro tipo de indignidades), mas omite que a cidade já estava em revolta antes disso devido a uma greve geral.
Apesar do cariz propagandístico e manipulativo, e da introdução de personagens fictícias convenientes – o padre maléfico, crítica evidente à religião – o filme funciona bem e teve forte impacto internacional após a estreia em Berlim, e a posterior disseminação mundial. Douglas Fairbanks ficou tão impressionado que quis conhecer Eisenstein e convidou-o a instalar-se em Hollywood, onde disseminou este filme, influenciando a obra de directores americanos. Eisenstein voltou ao seu país sem ter feito o sucesso esperado nos EUA, mas a viagem acicatou a paranóia do regime numa relação de amor-ódio que durou até 1945, quando Estaline, que lhe dera a Ordem de Lenine e a direcção do Mosfilm, o maior estúdio do país, o condenou ao ostracismo até à sua morte, em 1948. Assim, foi censurado dentro da Rússia e, também, no estrangeiro. No meu país, a sua obra só foi autorizada em 1975, e muitos aspectos deste mesmo filme, suavizados ou cortados, só foram restaurados em 2004, numa nova versão então lançada que será, certamente, a mais próxima da versão pensada pelo seu director.
Em 07 Oct 2025