Autor: Pedro Quintão
“Bugonia” é daqueles filmes que confirmam que Yorgos Lanthimos continua a ser um realizador com uma assinatura própria, mas nem sempre isso é suficiente para manter-nos agarrados do início ao fim. Depois do delírio visual e emocional de Poor Things, foi inevitável não criar altas expectativas. Aqui, Lanthimos volta a explorar o absurdo e o humor negro, mas a sua excentricidade surge mais contida, como se o filme oscilasse entre a sátira e o tédio. Creio que menos 20 minutos, teriam beneficiado o filme e impedido que eu adormecesse durante 5 minutos. Há um comentário interessante sobre o fanatismo e a forma como certas comunidades online impõem as suas crenças e conspirações. O realizador parece apontar o dedo à estupidez coletiva, mas a meio, o ritmo arrasta-se. Há boas ideias, boas performances, Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis sustentam a trama, mas o filme perde-se um pouco na sua própria estranheza. É como se Yorgo Lanthimos tivesse uma visão muito clara sobre o que quer dizer, mas não sobre como manter o espectador desperto até lá. Nos momentos finais, quando a narrativa finalmente se solta e o tom absurdo volta a ganhar a forma que desejavamos, sentimos o filme a respirar, a libertar-se… e, ironicamente, é aí que termina. Fica a sensação de que Bugonia tinha tudo para ser uma obra provocadora e memorável, mas ficou a meio caminho. Não é um desastre, longe disso, mas também não é uma daquelas experiências que ficam gravadas na nossa cabeça depois dos créditos. Entre o desconforto e a apatia, Bugonia entretém, mas não fascina.
Em 02 Nov 2025