Autor: Filipe Manuel Neto
**Relembrar o Álamo novamente.**
A Guerra de Independência do Texas, como todos sabemos, foi um conflito que opôs os rebeldes texanos aos soldados mexicanos. O território estava sob a fortíssima influência dos americanos e desejava tornar-se independente para, num segundo momento, se tornar numa parcela dos EUA. Encabeçados por António Lopes de Santa Ana, os mexicanos não só subestimaram o inimigo como se permitiram a uma derrota humilhante na Batalha de San Jacinto, dando a vitória ao lado rebelde. Este filme dedica-se a trazer ao cinema uma das batalhas mais icónicas da guerra: o cerco ao Álamo, uma fortificação que defendia a vila de San António, capital dos texanos. A batalha pode até nem ter sido decisiva, mas a forma como os texanos resistiram e foram quase todos mortos tornou-os mártires para os rebeldes, dando-lhes um alento que até então não tinham.
Apesar de a maioria das pessoas considerar este filme um mero remake do famoso filme de 1960, protagonizado por John Wayne, eu sinto-me renitente a seguir esse caminho: de facto, a abordagem do director e argumentista John Lee Hancock é totalmente diferente, privilegiando a leitura mais rigorosa dos factos históricos em detrimento da heroicização, pura e simples, dos texanos. É claro que Santa Ana, com a sua brutalidade e arrogância, ainda é um vilão de pantomina, ignorando-se totalmente os matizes morais e mentais do líder mexicano, visceralmente preocupado em solidificar o seu poder e impedir outras revoltas pelo país, mas isto também não é um documentário e eu aceito bem as liberdades criativas assumidas pela equipa. Mas se esquecermos esta ligeireza no tratamento da parte mexicana, eu não considero este filme um remake: os factos e acontecimentos da história vão sempre se prestar à produção de vários filmes e não os podemos considerar remakes só porque abordam o mesmo momento histórico.
A nível técnico, observamos uma atenção criteriosa à reconstituição dos ambientes, como o Forte do Álamo e a sua icónica fachada missionária inacabada, dos fardamentos e dos figurinos de época. Houve, da parte da produção, o cuidado de pedir a colaboração de um bom grupo de historiadores e consultores e de levar em conta as suas opiniões, o que faz toda a diferença neste tipo de filme. Aparte algumas liberdades e concessões práticas que, por vezes, são impostas pela gestão orçamental e logística, não observei erros históricos de palmatória, mesmo admitindo que não sou um perito neste momento da história. Além disso, a cinematografia apresenta uma grande elegância, com um uso inteligente da luz e dos ângulos de filmagem, que o trabalho de pós-produção soube valorizar montando tudo de maneira coerente e coesa. A banda sonora é igualmente muito boa.
Quanto aos actores, eu tenho um misto de sentimentos: por um lado, não posso deixar de considerar que Billy Bob Thornton nos deixou aqui um dos trabalhos mais convincentes e empenhados da sua carreira recente. Ele conseguiu tornar Davy Crockett memorável e digno sem os heroísmos vãos e dando menos relevância ao famigerado chapéu de pele da personagem romântica. Igualmente notável, Dennis Quaid dá-nos um Sam Houston muito determinado e forte, um líder nato; Emilio Echevarría faz tudo o que pode por Santa Ana, mas a forma como o roteiro conduz a personagem não lhe dá material muito bom; muito mais fracos e inconstantes, Jason Patric e Patrick Wilson tentam equilibrar-se num filme que relega as suas personagens para o fundo do palco, não lhes dando muito espaço.
Em 26 Feb 2025