Autor: Filipe Manuel Neto
**A redenção de Igor é apenas mais uma versão floreada da história de Frankenstein.**
A história de Frankenstein e do seu monstro tem sido levada ao cinema por várias vezes e sob diversas mutações. Sendo difícil apresentar algo que não tenhamos já visto, o filme que hoje abordo é apenas mais uma versão da história de sempre, desta vez contada pela boca do icónico assistente do médico louco, Igor.
Igor é, de facto, uma figura marginal da história de Frankenstein. Ele não aparece no livro original, de Mary Shelley, mas foi introduzido tardiamente pelo cinema, quando se achou que seria interessante dar ao médico um assistente disforme que, de modo algo simbólico, exterioriza visualmente a distorção e disformidade da mente do seu amo. Este filme acaba por ser a redenção desta personagem maltratada: humanizado e tornado num herói, Igor é o narrador e testemunha privilegiada da loucura de Frankenstein, e apresenta um talento médico e inteligência equiparáveis ao horrífico brilhantismo do seu tutor.
Infelizmente, para além da redenção e protagonismo dados a uma personagem marginal e inventada pelo cinema, o filme não apresenta grandes mudanças nem se constitui como uma narrativa interessante do conto que conhecemos. Oferece muito pouco, menos até do que poderia dar-nos se o roteiro fosse mais denso e complexo, e se o filme se levasse mais a sério a si mesmo. A produção deu grande enfoque aos efeitos visuais e de CGI, mas nós já estamos um pouco cansados de ver filmes que têm pouco a oferecer para além disso. Tudo bem, os efeitos são bons, funcionam bem, mas isso é o mínimo que se espera de um filme com tanto enfoque no departamento de efeitos! Não é suficiente.
Daniel Radcliffe faz um trabalho competente no papel de Igor. Ele tem uma experiência longa a fazer heróis simpáticos e sabe como parecer agradável, mas o filme não lhe pede um grande esforço como actor, ou se pede eu não consegui perceber isso no momento. O papel do médico é vivido por James McAvoy, outro bom actor britânico, adequadamente arrogante e presunçoso. Freddie Fox e Andrew Scott dão um apoio muito necessário, mas não conseguem acrescentar muito. Infelizmente, o filme não precisava realmente do apoio de Jessica Brown Findlay, e a personagem dela parece ter sido inserida à força para que o protagonista se sentir coagido a tomar atitudes que, de outra maneira, não tomaria.
Tecnicamente, o filme tem alguns pontos positivos: os valores de produção são adequados e fazem um trabalho decente, partindo do ambiente vitoriano de Londres para nos gizar a aparência de vários locais, como a casa de Frankenstein ou o auditório médico onde este expõe as suas ideias e é ridicularizado. Para além dos cenários, adereços e figurinos, este filme tem ainda uma boa fotografia e trabalho de filmagem, e uma edição decente, mas é basicamente só isso.
Em 14 Dec 2024