Autor: Filipe Manuel Neto
**Um espectáculo visual com uma trama surrealista, para dizer o mínimo.**
Gary Ross dirigiu e escreveu um dos filmes que mais me recorda o surrealismo artístico. Pelo menos, é o que me vem ao pensamento após ter visto este filme! Recorda-me muito uma daquelas pinturas de Salvador Dali, onde o onírico e o bizarro se misturam de modo ultra-realista com a própria realidade.
Para mim, o argumento escrito é o ponto mais forte do filme. A história é realmente muito original, criativa, fora do comum: começa nos anos 90, com dois irmãos que se sentem, de maneiras distintas, desajustados com a sua realidade e com a sua vida. Quando os dois brigam e partem o controlo remoto da TV, por artes mágicas, aparece um técnico que lhes dá um novo, após uma conversa sobre a série de TV favorita de um deles. E quando eles o utilizam, acabam DENTRO da série de TV, que é uma ficção positivista idílica passada nos anos 50. A partir daí, à medida que vão interagindo com as personagens da série, na pele de duas personagens principais, os dois irmãos vão trazer mudanças radicais a tudo o que os rodeia, incluindo a própria cor dado que a série era transmitida a preto-e-branco.
Nomeado para três Óscares (Melhor Figurino, Melhor Direcção de Arte, Melhor Banda Sonora Original), perdeu-os todos. Não obstante, a nomeação era justíssima e esquece de todo o excelente argumento escrito e a notável cinematografia, que mereceriam também uma nomeação, ainda que infrutífera. De facto, o trabalho da cor e dos gradientes cinzas neste filme é impressionante e feito com um profissionalismo notável, assim como todo o trabalho de filmagem e edição. A banda sonora também faz um trabalho notável, com uma boa colecção de melodias e canções que serão facilmente reconhecidas por uma boa parte dos espectadores.
O elenco é liderado por Tobey Maguire e Reese Witherspoon. Os dois actores eram bem adultos quando interpretaram estas personagens, mas foram bafejados com a sorte de não aparentarem absolutamente a sua respectiva idade biológica: ao parecerem mais jovens do que realmente são, não senti que a questão da idade fosse um grande limitativo para o trabalho deles aqui. Ainda melhores do que eles, William Macy e Joan Allen oferecem-nos um excelente trabalho de interpretação e actuação, com personagens complexas que são humanizadas de maneira impressionante. Jeff Daniels é menos impressionante, mas a verdade é que isso se deve, em boa medida, à personagem algo amorfa e sem sangue nas veias que lhe deram para fazer. Don Knotts, por seu turno, faz apenas o que tem que fazer, mas tudo o que ele fez foi bem feito e honrosamente cumprido.
Em 03 Apr 2025