Autor: Pedro Quintão
A minha expectativa para esta prequela era altíssima, pois tratava-se de uma prequela do filme original e a ideia de seguir quatro jovens que escaparam de um hospital psiquiátrico enquanto espalhavam o caos pelo Texas, fazendo com que o público tentasse adivinhar qual deles se tornaria o infame Leatherface, tinha potencial para ser genial e nos surpreender com algum plot twist mesmo bom. No entanto, o resultado foi uma prequela que falha em invocar quase todos os aspetos que definem The Texas Chainsaw Massacre. Falta-lhe a identidade, a ousadia e, sobretudo, a atmosfera que tornou este universo tão único e perturbador.
O que sempre distinguiu The Texas Chainsaw Massacre das outras sagas de terror foi aquela sensação sufocante de insanidade total. O ambiente bizarro, as interações caóticas e grotescas entre os membros da família Sawyer, a tensão claustrofóbica, tudo isso está completamente ausente aqui. Leatherface é um filme incrivelmente genérico e quase se sente como um spin-off que tenta ser um thriller psicológico, mas sem a alma ou o peso que se espera de um filme da saga. Se alguém me dissesse que isto era um filme independente com algumas referências soltas ao universo Texas Chainsaw, eu acreditaria.
Como referi na introdução, um dos maiores erros foi o retrato da família Sawyer. Nos filmes anteriores, as dinâmicas entre eles eram desconfortáveis, bizarras e absolutamente hipnotizantes. Eram o coração da loucura que definia a saga. Aqui, são apenas uma família sádica como tantas outras que já vimos em inúmeros filmes de terror. Não há profundidade, não há aquele toque de insanidade que os tornava memoráveis. Até mesmo o próprio personagem Leatherface é tratado de forma superficial: ele só assume a sua identidade icónica nos últimos 10 minutos do filme, e a máscara de pele surge no último segundo com uma justificação absolutamente frustrante. Basicamente, tudo o que torna Leatherface uma figura de terror marcante foi atirado para o lado.
Em todos os filmes, o icónico serial killer é conhecido devido à sua motosserra, que aqui se encontra praticamente ausente. Etsamos perante uma prequela de The Texas CHAINSAW Massacre, e se dá mais destaque a uma espingarda do que à motosserra. O título deveria ser Texas Shotgun Massacre.
O caos e a insanidade que deviam estar presentes em cada cena são substituídos por sequências que mal se esforçam para ser memoráveis. Até mesmo a fuga dos quatro pacientes do hospital psiquiátrico, que deveria ser um festival de caos e destruição, é aborrecida e previsível. Vão a dois lugares, pegam numa espingarda e seguem para o ato final. Não há cenas impactantes, não há momentos de loucura que fiquem na memória. Os produtores tiveram nas mãos uma premissa brilhante, mas decidiram fazer o mínimo, como se tivessem medo de arriscar ou de criar algo realmente ousado.
O mistério sobre qual dos fugitivos se tornará no grande vilão é apenas interessante no início. A resposta para esse mistério chega tarde demais, e o impacto acaba por ser quase inexistente. O filme passa tanto tempo a ser um thriller genérico que, quando tenta conectar-se à saga, já perdeu qualquer possibilidade de cativar. **(SPOILER)** E no final, ainda somos "congratulados" com um desfecho frustrante e previsível para a enfermeira que os fugitivos raptam. Tornando-se na primeira vítima do vilão. Preferia que ela demonstrasse o seu instinto assassino e fosse aceite como membro da família Sawyer. Seria bem menos previsível e talvez desse para ser uma personagem a explorar numa hipotética sequela desta prequela.**(FIM DOS SPOILERS)**
Em suma, Leatherface falha não apenas por ser um filme fraco de terror, mas sobretudo por ser um péssimo filme da saga The Texas Chainsaw Massacre. Não tem a atmosfera da franquia, não tem elementos que choquem o espectador e não tem a insanidade que esperamos desta saga. Falta-lhe identidade. Falta-lhe tudo. O resultado é uma obra que, no melhor dos casos, é esquecível, e no pior, uma ofensa ao legado de uma das maiores sagas do cinema de terror. Se forem fãs, assistam por curiosidade, mas preparem-se para sentir que viram algo que podia ser qualquer coisa, menos um filme da família Sawyer.
Em 27 Nov 2024