Autor: Filipe Manuel Neto
**Um dos filmes que moldou o padrão dos dramas de tribunal, e que merece ser revisto e apreciado pelos públicos do século XXI.**
Eu creio que, quando falamos de “dramas de tribunal”, isto é, filmes dramáticos centrados no que se passa durante o julgamento de uma pessoa acusada, este filme é paradigmático e ajudou a estabelecer o padrão para o que este tipo de cinema tem de ter: advogados com carisma e profundamente empenhados, muitas reviravoltas de oratória diante dos jurados e do juiz, um criminoso cuja inocência seja tão questionável que até nós duvidemos dele e uma (ou várias) grandes reviravoltas no fim que tornem o desfecho electrizante e pouco previsível. Aqui temos tudo isso, mas o filme funcionará melhor se desconhecermos o final, sendo a primeira vez que vi um filme ter, no fim, um pedido explícito ao seu público para não fazer spoil depois da sessão! Sinceramente, é um detalhe delicioso!
O melhor do filme é o seu argumento escrito, verdadeiramente inspirado, que se baseia num texto original de Agatha Christie que foi adaptado pelo director, Billy Wilder, e por Harry Kurnitz. Wilder estava então a viver o ápice da sua carreira como director e a fazer os filmes que o tornaram imortal, tais como “Sabrina”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “O Apartamento”. Este filme não fica atrás, apesar de o peso cultural dos outros filmes do cineasta ter ensombrado claramente a projecção e reconhecimento actual que este filme poderia conseguir. O director é muito hábil na forma como cria e modela o ambiente e o ‘suspense’, seguindo de perto os passos de Hitchcock, seu contemporâneo. A cinematografia a preto-e-branco é impecável, com um trabalho de luz e sombra muito bem feito e um trabalho de filmagem eficaz. A edição faz o resto.
Quanto aos actores, temos alguns dos nomes mais pesados da indústria desta época, com o sempre seguro Tyrone Power a garantir um protagonista carismático, com ares de galã e convincente quanto baste. O actor estava a crescer novamente em Hollywood após uma paragem na carreira de cinema, até aí focada em papéis unidimensionais de galã ou herói. Tudo parecia encaminhar-se para uma reciclagem feliz de um actor que se sentia capaz de muito mais que roubar corações dentro e fora do palco… infelizmente, a morte levou-o cedo demais, o que faz deste filme, basicamente, a última aparição de Tyrone Power na tela grande e, incompreensivelmente, um dos seus trabalhos menos recordados quando se fala deste actor.
Juntamente com o Sr. Power temos a incomparável Marlene Dietrich, uma das maiores divas do cinema de todos os tempos, eternamente recordada por “O Anjo Azul” e outros filmes…, mas não por este filme, onde a actriz se mostra impassível como uma jogadora de póquer, e onde a personagem dela tem papel fundamental no desfecho da trama. Ela é notável em todos os aspectos e dá-nos tudo o que a personagem dela precisa. No entanto, quem realmente rouba as atenções do público é o inspiradíssimo Charles Laughton, cuja carreira havia sido moldada pelos sucessos em palco, tanto no Reino Unido quanto nos EUA, e por êxitos de bilheteira como “Spartacus” e “Revolta na Bounty”. Neste filme, o actor tem tempo e material para explorar a veia cómica muito agradavelmente britânica e fazer-nos rir com uma personagem carismática e colorida.
Em 27 Jun 2025