Autor: Filipe Manuel Neto
**Um remake muito bem vindo.**
Eu devo ser um dos poucos iconoclastas que não declarou aqui o seu amor imorredoiro por “West Side Story”, um dos musicais mais bem sucedidos e mais aclamados de todos os tempos, e que continua, até hoje, a seduzir multidões de espectadores. Tal como eu já tive ocasião de dizer então, eu esperava outra coisa. A história baseia-se no conflito étnico entre um bando de jovens anglo-saxónicos de Nova Iorque e outro bando, de imigrantes de Porto Rico, e no amor improvável entre o chefe do bando americano e a irmã do chefe do bando porto-riquenho. Eu sei que, na época, a questão não era tão delicada quanto nos dias actuais, mas não consegui deixar de sentir que havia ali um certo preconceito com os latinos. Basta pensar que a actriz principal não era uma latina, mas uma anglo-saxónica a quem pintaram a cara e que nem sequer cantou no filme.
Abençoado seja Steven Spielberg quanto teve a ideia de fazer este remake. O filme honra o material de origem e respeita o filme mais antigo, mas corrige os maiores erros que eu tinha apontado, apresentando-nos uma visão mais agradável. Não é um trabalho isento de problemas, mas são outro tipo de problemas diferentes dos que eu tinha apontado para a versão de 1961.
O olhar atento e meticuloso do director manifesta-se na concepção criteriosa dos cenários e dos figurinos, no desenvolvimento das personagens, muito completo e profundo, e nas extraordinárias coreografias de dança, metricamente pensadas e executadas com o maior profissionalismo. Também gostei bastante da concepção dos locais, e da inserção de toda a história num bairro nova-iorquino em vias de desaparecer para dar lugar a um moderno espaço de escritórios. A banda sonora e as canções são, essencialmente, aquelas que todos nós esperávamos encontrar, e são muito bem executadas pelos actores, por vezes durante a filmagem, ao invés de num estúdio de gravação.
Um dos aspectos que mais me agradou nesta versão foi a extrema brutalidade dos grupos rivais. Desta vez, eles não parecem meninos de coro aborrecidos que resolveram andar à pancada depois da missa dominical. Facas, armas de fogo, bastões, tudo o que eles podem usar para lutar, eles usam, e parecem mais ameaçadores e temíveis, tal como se espera de um bando de delinquentes juvenis autêntico. Também me agradou ver novamente alguns dos actores ainda vivos do filme de 1961, em outras personagens e papeis, especialmente Rita Moreno, que deu vida a uma simpática comerciante desta vez. Acho que foi uma boa maneira de os homenagear e de honrar o trabalho deles.
Rachel Zegler é uma jovem latina, filha de mãe colombiana, e extremamente talentosa. É uma actriz talhada à medida do papel de Maria, e aproveitou ao máximo a oportunidade para alavancar a sua carreira profissional. De facto, ela é excelente, canta muito bem e é bastante competente como actriz. Ariana DeBose e David Alvarez são igualmente muito boas escolhas e enriquecem o filme com empenho, competência e carisma, especialmente DeBose, que parece ter uma personalidade enorme e um gigantesco brilho pessoal. Mike Faist é excelente no seu papel. Quanto a Ansel Elgort… ele tenta, ele procura ajustar-se e luta com a personagem e o material, mas acho que ele nunca se encontrou plenamente em cena. Falta qualquer coisa ali. Mas isto é a minha opinião pessoal.
Em 03 Jun 2024