Autor: Pedro Quintão
Adorei este filme. E digo isto com total convicção, porque The Cell é uma experiência visual e sensorial que, mesmo 25 anos depois, continua a ser algo verdadeiramente singular dentro do panorama comercial. É pena que, na altura, tenha sido completamente maltratado por críticos armados em pseudo-intelectuais de meia leca, que deram hate só porque tinha a Jennifer Lopez como protagonista. Felizmente, o tempo pôs tudo no lugar, e hoje o filme começa finalmente a ser reconhecido como aquilo que realmente é: uma obra de referência dentro do thriller e de filmes com elementos de sci-fi e fantasia.
A história é bastante interessante, focando-se numa mulher que entra literalmente na mente de um serial killer para tentar descobrir o paradeiro da sua última vítima antes que o tempo acabe. É uma premissa incrivelmente forte e, talvez possa estar enganado, mas durante vários momentos iniciais, senti que Christopher Nolan se inspirou ligeiramente neste conceito para o seu Inception (2010).
Visualmente, The Cell é dos filmes mais belos que já vi. Com planos abertos assombrosos, ótimos contrastes de cores, guarda-roupas e maquilhagens distintos,... Tarsem Singh demonstra aqui uma visão artística absolutamente abismal, uma identidade visual que ele viria a aprofundar anos mais tarde em The Fall (2006). É uma pena que não tenha continuado a explorar este estilo estético ao longo da sua carreira, porque tenho a sensação de que, se o tivesse feito, hoje estaríamos a falar de um dos maiores realizadores da atualidade.
Há imenso suspense, e é dentro da mente do assassino que o filme verdadeiramente brilha. Aquela bizarrice fascinante, os cenários grotescos e ao mesmo tempo hipnotizantes, a forma como tudo parece um pesadelo pintado com uma beleza doentia, acaba por ser impossível não ficarmos impressionados. The Cell é paradoxalmente criativo, bizarro e belo ao mesmo tempo.
Talvez o único problema esteja mesmo perto da reta final, quando a narrativa começa a seguir por caminhos mais fáceis e resoluções um pouco apressadas. Pessoalmente, não me importaria que esta viagem pelo subconsciente fosse mais lenta, mais contemplativa, para podermos explorar com mais detalhe aquele universo visual tão doentio quanto belo.
Mesmo assim, The Cell é fascinante. Um daqueles filmes que marcam pela ousadia, pela estética e pela ambição. Recomendo sem hesitar e fico genuinamente feliz por ver que, passados 25 anos, está finalmente a receber o reconhecimento que sempre mereceu.
Em 19 Oct 2025